Torradas Tostadas

16 de Abril de 2012
by Nina Rocha
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Paul McCartney e a capacidade de se apaixonar

Coração com a mãozinha só se for Sir Paul

Paul não é o meu beatle favorito. Até nos Beatles as músicas cantadas por Paul não são minhas favoritas, mesmo sendo lindas. As letras são quase todas incríveis e com melodias impecáveis,  mas não são as minhas favoritas. E são bonitas numa dimensão que eu nunca tinha entendido antes. Muitas músicas dos Beatles são engraçadinhas, divertidas, revolucionarias, doidonas, sobre paz, drogas ou amizade. Mas as musicas do Paul são (quase) todas sobre só uma coisa. Algo que, ironicamente ou não, foi o John Lennon fixou como quase uma bandeira do grupo quando cantou repetitivamente que é tudo o que precisamos: amor. Quando lembramos do All you need is love, quem vem imediatamente à mente é o John Lennon. Não é questionando nem desmerecendo o amor cantado pelo Lennon, mas não há músicas tão românticas quanto as do Paul.

Não é fácil amar, tampouco falar de amor. É clichê dizer isso? É. Da mesma forma que escrever sobre os Beatles, falar sobre os Beatles, gostar dos Beatles se tornou. Mas as musicas e os textos continuam aqui, ali e em todo o lugar. Por isso faltam palavras. Fogem, somem, desaparecem quando mais precisamos. Mas isso não é problema nas canções do Paul: basta começarem as primeiras notas ou os primeiros acordes que o amor parece simples como nas melodias. Parece que aquela voz, serena e tranquila está entre os versos dizendo que tudo fica bem. Falam muito que o amor embaranga as pessoas – eu mesma vivo dizendo isto -, com todos os corações, flores e declarações cafonas.

O interessante do Paul é que ele não canta só o amor, mas  também canta a esperança. Não a de acertar o tempo todo, mas a de poder errar, começar de novo. E poder sempre ter borboletas no estomago,  ter o direito de ficar bobo. O mundo requer que gente seja cada vez mais racional que nos esquecemos como é bom desprender de preocupações e neuroses e simplesmente se fascinar por algo tão bonito de sentir. É cada vez mais fácil erguer prédios, fazer revoluções. Parece que o difícil agora é sentir alguma coisa.

E porque eu resolvi escrever tudo isso? Porque o Paul fez um clipe lindo pra uma música linda, que eu já devo ter visto umas dez vezes. Não canso, me emociono toda vez. Não sei como foi para quem viveu a época, ver musicas como as que eu escolhi para o post “nascendo”, se elas sabiam que as canções seriam eternizadas e lembradas anos e anos depois. Não sei se essas musicas tomaram de amor e esperança o coração de quem as ouvia pela primeira vez. Mas foi exatamente o que eu senti. Vontade de amar. As pessoas, as coisas, as pequenas coisas, os detalhezinhos, os sinais que dizem tudo sem dizer nada. A capacidade de se apaixonar está ai em nossa frente esperando que a desafiamos. Por alguém, por algo, por uma canção bonita. E nem precisa amar muito. Pode ser pouquinho, qualquer tanto. O importante é só sentir.

25 de Fevereiro de 2012
by Nina Rocha
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Updates

O primeiro sistema operacional moderno surgiu há mais de 40 anos. O Windows veio alguns anos depois, com o MSDOS e seus comandos de texto, tinha suas funções limitadíssimas e funções simples, como calendário , calculadora, relógio, programas primitivos. Com o decorrer dos anos, novas versões passaram a oferecer mais cores, maior qualidade gráfica. Depois, foi um pulo para criarem um navegador, extensões que permitiam identificar arquivos, opções de escolha de visualização. De tempos em tempos, surgem atualizações, novas versões que corrigem as falhas das versões anteriores. Novos programas, novos pacotes, novos desenhos, atalhos criados para facilitar o uso. Os desenvolvedores buscam sempre satisfazer cada vez mais seus usuários, e mesmo com uma coisa ou outra – ou até mesmo varias – saindo fora do esperado e complicando um pouco a vida de quem adotou o produto: o proposito, claro, é vender. Mas para isso, é preciso sempre melhorar.

O mesmo aconteceu com o Macintosh. Começou com uma interface simples e sem muitos recursos, mas não demorou para iniciar o uso de ícones para representar os aplicativos, melhorar a interface gráfica do desktop, começou com o mouse, o clique duplo (dá para imaginar a vida sem eles hoje?), trocar o disquete pelo cd, e não tarda a lançar versões que corrija suas falhas, e as falhas das correções das falhas, em um ciclo interminável até que se alcance um sistema infalível, perfeito. Sabe-se lá se um dia alguém, alguma empresa ou alguma máquina conseguirá tal feito, mas olhando para trás, o progresso é inquestionável. Há alguns anos duvidaríamos do que um clique faria. Quem acreditaria que um botão acoplado a tantas placas metálicas, baterias, chips acionaria uma bomba, mandaria uma declaração de amor?

Os primeiros homens surgiram milhões de anos atrás. Criaram tudo isso, fizeram grandes descobertas, salvaram algumas vidas e condenaram muitas outras, mas quando foi ultima nossa grande atualização? Qual a melhora que vemos surgir no passar de séculos e no enterro e nascimento de novas gerações? Nenhuma maquina é perfeita, tampouco são os homens. Mas nosso sistema operacional é arcaico. Somos cheios de falhas de caráter, de personalidades duvidosas e manias inadequadas, somos uma infinidade de erros a serem corrigidos, mas… Onde achamos essa tal correção? Damos uma de programadores da própria história ou ficamos só esperando o Bill Gates ou a Apple lançarem o próximo Windows ou o IOS? Não temos updates e só nos tornamos mais impacientes e intolerantes. Ok, até melhoramos nossos firewalls e aprendemos com o tempo a deixar menos arquivos suspeitos o atravessarem, mas passam muitos Cavalos de Tróia, e bagunçamos com nossos arquivos, acabamos com os sistemas alheios. Não tem mesmo upgrade para o ser humano? Qual o botão que preciso clicar para conseguir aprimorar o meu desempenho, consertar as minhas falhas, baixar minha nova atualização? Quanto tempo temos que esperar pela versão melhor de nós mesmos?

30 de Dezembro de 2011
by Nina Rocha
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3 anos

Um beijo e um queijo pra todo mundo que nesses três anos de Torradas Tostadas leu, compartilhou, xingou muito no Twitter, comentou, riu das bobagens, criticou os posts ruins, elogiou os posts bons, chorou dos dramas e discutiu as coisas sérias. Feliz aniversário pro blog e muito obrigada a todos vocês! :)

26 de Dezembro de 2011
by Nina Rocha
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Eu vi o mundo ficar chato

Tem gente nostálgica que adora falar do que viu acontecendo. Enche a boca pra dizer que viu o muro de Berlim ser derrubado, a ditadura militar no Brasil acabar, o John Lennon ser assassinato. Pois eu não vi nada disso, e quando chegar minha hora de contar o que vi acontecer, não vou ter orgulho de relatar nenhum fato. Eu vi o mundo ficar cada vez mais chato. Eu estive lá.

Não sei bem o que houve de errado, e me importa muito mais as consequências do que as causas. Sei que agora além da cautela ao atravessar a rua e com a violência, o maior cuidado que temos que tomar é com o que a gente fala. Em questão de segundos – ou de cliques – qualquer piada vira crime e um pouco de sarcasmo é artigo luxuoso do mal gosto. Falar besteira é quase pior que pena de morte. É pena de manchetes desnecessárias e processos inúteis. Tem muita coisa babaca por ai mesmo. Tem gente que fala merda, tem falas pesadas. Mas será que todo mundo tá tão sensível a ponto de se ofender assim tão fácil? Sei que tá ficando feio. Não tá pegando muito bem pra imagem da humanidade. Não pode falar de politica, de esporte, de sexo, nem de religião. Não pode brincar. Porque ninguém mais sabe brincar.

Não era pro mundo ser pelo menos um pouquinho divertido? Ao invés disso, tá todo mundo enfiando moralismo e falso moralismo goela abaixo. Desce, mas dá náuseas. Levam muito a sério, menos o que de fato importa. Estão todos muito mais preocupados com Wanessa, Rafinha Bastos e o bebê do que com a crise de ministros no Brasil. Mas quem se importa com a economia quando a audiência está em baixa? Um quadro sem graça causa mais impacto que a corrupção. Isso sim é piada de mal gosto que devia virar noticia.

A piada ruim não é a politicamente incorreta, a preconceituosa ou a racista. Elas são ruins, claro, mas são piadas. Bobo da corte não é quem a faz, mas quem a leva a sério. Tem muita coisa pra se revoltar por ai. Porque não pegar uma que valha a pena? É bem bonito se indignar pela morte de um cachorro e continuar tratando o ser humano como um cão.

O mundo ficou chato, politicamente correto. A cada dia a irreverencia se perde nas frases prontas de impacto, nas revoluções das hashtags e dos botões de compartilhamento. Uma pena, uma vergonha. Mas o pior de tudo é ter que ver isso acontecer.

24 de Dezembro de 2011
by Nina Rocha
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O pior emprego do mundo

Dei uma olhada rápida no Google antes de começar. Entre os piores estão zelador de cinema pornô, limpador de esgoto em Calcutá e guarda do Palácio de Buckingham. Claro que esses trabalhos devem ser terríveis, mas tenho mesmo dó é dos pobres coitados que aceitam o bico de fim de ano para ser… Papai Noel de shopping. Mas qual o problema de ganhar pra passar o dia todo sentado num trono luxuoso importado do Polo Norte?

As circunstâncias não são muito favoráveis. A começar pelo calor do fim de ano e aquela roupa linda toda vermelha, geralmente de algum tecido pesado. Imagina o quão quente não deve ser por baixo disso? Sem contar no gorro. E na barba sintética, porque nylon deve ser muito muito quente.  Alguns vencedores deixam até a barba de verdade crescer o ano todo pra exercer com mais verossimilhança o seu oficio.

Dai vem as crianças, a pior parte. Nada contra, tem umas que são fofinhas e educadas. Mas a maioria é catarrenta, dá piti e faz escândalo. Grita, esperneia e faz escândalo. Haja paciência. E querem presentes. São mais exigentes que artista gringo no Brasil. Ho-ho-ho, deixe sua cartinha e na noite feliz receberá o que pediu. Os pais vão e não compram o que o aborrecido queria e quem leva a fama de caloteiro é o pobre Papai Noel do shopping. Você foi uma boa menina? Pois o Papai Noel do shopping tem que ser uma boa alma e sorrir a cada 2 minutos para uma foto que vai ser esquecida em menos de duas semanas.  Ainda tem os adolescentes pra tirar sarro, os bebês que puxam e tiram a barbicha que levou tanto tempo e cola pra ficar no lugar e o óculos meia lua sem grau que insiste em escorregar pelo nariz suado dos sofridos Noeis.

Os Papais Noeis do shopping não são devidamente valorizados. Você deseja Feliz Natal pro caixa da padaria, pra vendedora de loja, mas quem lembra dos seres humanos fantasiados de castigo no meio de uma praça?  Eles vivem constante bullying da sociedade, se esforçam e sofrem tanto para estarem ali segurando no colo crianças fedidas que não são suas crias sustentando o pilar de  uma mentira. Se não for o pior emprego do mundo, tá bem perto disso. Só espero que seja pelo menos bem remunerado, porque nem nas listas eles são lembrados.

Um feliz Natal pros queridos leitores do Torradas Tostadas! :)